quarta-feira

Brasil tem muitos republicanos liberais e poucos democratas republicanos

Feichas Martins [*]


BRASÍLIA [ ABN NEWS ] - Baltasar Gracián, o grande filósofo e jesuíta espanhol de meados do século XVII, apreciado por Nietzsche como um dos mais refinados intelectuais da Europa, alerta num dos seus escritos que a porta de entrada da sorte pode se tornar a porta de saída da ruína, porque nenhum jogador ganha o tempo todo.

O livrinho de conselhos de Gracián está por aí, para ser lido por todos os que se consideram espertalhões na política e acreditam que sempre estarão na crista-da-onda, situação que até o socialista italiano Norberto Bobbio, o maior filósofo político do século XX, despreza, em seu livro autobiográfico “O Tempo da Memória”.

É preciso que haja renovação nos quadros políticos brasileiros e que os herdeiros do poder identificados por Faoro se reciclem nos ares liberais da Europa, como vive sugerindo o senador Marco Maciel, para quem as elites brasileiras precisam ser repensadas.

É ridículo que um país com o porte e as riquezas do Brasil, com pretensões de poder mundial, aceite passivamente uma democracia onde se alternam no poder apenas dois partidos, o PSDB e o PT, quando há outros partidos de grande porte em condições de disputar o poder.

Bipartidarismo é coisa de regime de exceção, como ARENA e MDB da década dos sessenta e setenta. Pluripartidarismo é diversidade e ventilação das doutrinas e idéias, que, no Brasil, parecem adormecidas em berço esplêndido.

Estudantes, sindicalistas, associações, operários, todos, enfim, com potencial de serem protagonistas de transformações sociais, permanecem calados. Tal é a democracia mitigada desmobilizante vigente.

Dirão os reacionários que os Estados Unidos têm um regime de governo livre e democrático, com bipartidarismo de fato, alternando-se no poder democratas e republicanos. Mas, lá, na terra do Tio Sam, embora haja partidos menores, há um pacto federativo resultante da Guerra de Secessão,de 1861 a 1865,onde teriam morrido mais de um milhão de pessoas.

Qual é o pacto federativo brasileiro, senão aquele sustentado a ferro-e-fogo pela Monarquia para sufocar ou debelar duas dezenas de insurreições por todo o País? Eis que a questão federativa permanece mascarada no Brasil de hoje, agravada pela globalização, que relativa a soberania dos Estados.

No Brasil, nós temos muitos republicanos liberais e poucos democratas republicanos. Desconfio que o senador Marco Maciel, propondo que se repensem as elites, clama no deserto.


[*] Feichas Martins, articulista colaborador da ABN NEWS - Agência Brasileira de Notícias, é Palestrante, Jornalista, Mestre em Ciência Política pela UnB, Professor Universitário, Especialista em Planejamento Político-Estratégico e Consultor Político-Eleitoral. É membro do Comitê de Ética e de Liberdade de Expressão da Federação Nacional da Imprensa [Fenai-Faibra] e da Associação Brasiliense de Imprensa [ABI-DF]